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segunda-feira, 25 de março de 2013

Vivi Haydu: imigrante, filha, esposa, modelo, executiva, mãe, editora, avó - a trajetória de uma mulher (in)comum


A fuga do Egito

Esta pode parecer uma história comum ao povo judeu...

Há pouco independente, em 1956, o Egito via-se em meio a um conflito com Israel  - apoiado por França e Reino Unido - em razão da nacionalização do canal de Suez, feita pelo presidente Gamal Abdel Nasser. A guerra propriamente dita durou uma semana, pois houve ameaça de intervenção soviética apoiando o Egito e assim os Estados Unidos resolveram acalmar os ânimos. Em meio a Guerra Fria, os americanos não queriam lidar com mais um problema. Acontece que, se a batalha durou pouco tempo, suas consequências se alongaram por muitas décadas na vida da família Braunstein.

As ações nacionalistas de Nasser mexeram com o povo que compunha o país. Querendo manter o território apenas com legítimos estrangeiros (muçulmanos), o presidente expulsou centenas de egípcios de outras nacionalidades. Inclusive o economista Mauricio Braunstein, que trabalhava no jornal da revolução ao lado do próprio Nasser e Sadat - que mais tarde viria a ser presidente. Com nacionalidade espanhola herdada dos avós, Mauricio conseguiu rapidamente a ordem de expulsão e junto das duas filhas, esposa e um irmão, entrou na primeira lista e teve sete dias para sair do país.

Aos sete anos, sete dias

A menina esguia de olhos azuis piscina observava a mãe se desfazer das joias da família, com olhar firme e resignado de mulher forte. Aos sete anos, a caçula Clementina Aviva Braunstein, apelidada de Vivi, enfrentava a primeira reviravolta na vida, deveria sair do país em sete dias, até hoje não sabe ao certo se era por seus familiares serem judeus ou por terem nacionalidade espanhola. Poderiam levar uma pequena mala e roupa do corpo, nada além. As joias, dinheiro e outros bens, ficaram com o consulado espanhol. Fluente em francês e italiano, a família surpreendeu-se ao saber que iriam para América do Sul. 

- A escolha de Brasil foi aleatória. Quando meu pai foi comprar passagem , a gente achava que a opção seria ou França ou Itália, mas ele escolheu Brasil porque na fila todo mundo falava que era o país do futuro.

O constrangimento de fugir era ainda maior por conta do raio-x que tinham de passar antes do embarque no navio. Era para saber se não haviam engolido joias ou escondido algo nos cabelos. "Meio deprimente".

O roteiro da embarcação passava pela Suíça, onde Mauricio recebeu uma carta do antigo companheiro Nasser, pedindo seu retorno. Com orgulho ferido recusou-se a voltar e isso para sempre.

- Ele disse "não volto nem agora, nem nunca mais". Ele nunca voltou e nem me deixou voltar, apesar de mais tarde eu ter trabalhado próximo ao Egito, nunca voltei.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Loucos em série

Amigos reunidos em um café conversam descontraidamente sobre o próximo encontro amoroso de uma das mulheres do grupo. “Mas ele só pode ter algum problema”, brinca o rapaz de jaqueta de couro preta e cabelo liso, escorrido na testa, sobre o suposto par da amiga. “Não é um encontro”, trata logo de afirmar a garota de cabelos volumosos, na altura dos ombros e jaqueta amarela. Dentre as provocações habituais que esse tipo de assunto traz a um grupo de amigos, de uma hora para outra, o assunto se volta ao sonho da noite anterior de um deles. “Eu estava lá, no meio do colégio e eu percebi que estava completamente pelado. Olhei para baixo e vi que tinha um telefone lá... ao invés do... De repente, o telefone começou a tocar, eu atendi e era minha mãe, o que é muito, muito esquisito, porque ela nunca me liga!”. Boquiabertos com o sonho do engraçadinho, eles não parecem notar a entrada de mais um de seus amigos.

O rapaz de casaco azul se junta ao grupo com uma expressão triste e fala pesada. O assunto torna-se mais sério, o divórcio do próprio, que aos 26 anos vê-se em uma situação inusitada, a esposa saiu de casa para juntar-se a outra mulher. 

- Calma gente, eu quero que ela seja bem feliz.
- Não quer não! - Afirma a moça de jaqueta amarela
- Não quero mesmo, ela que vá para o inferno, ela me deixou! 
- E você não sabia que ela era lésbica? - Ironiza o de jaqueta preta.
- Não! Por que todo mundo está com fixação nesse detalhe? Ela não sabia, como é que eu poderia saber? - Argumenta indignado.
- Fica calmo. Você está chateado, com raiva, sabe qual é a solução? Striptease! Você está solteiro! - Comemora o de jaqueta de couro.
- Eu não quero estar solteiro. Eu só queria ser casado de novo!
Neste momento, uma moça loira, com um vestido de noiva bufante entra correndo no café. Ela parece procurar por alguém.
- E eu só queria ficar milionário! - Brinca o rapaz do sonho.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Top 10. 4 – Homens contemporâneos que admiramos

Gay Talese: O gênio da escrita

Posso dizer que o homem admirável da vez é uma inspiração. Daquelas pessoas que você admira e vê quão longe está do idealizado, mas sem frustrações, gênios são poucos e Gay Talese com certeza é um deles.

Sabemos (nós jornalistas), que antes mesmo de escrever é preciso observar e talvez seja na arte da observação que Talese faz sua mágica. Como disse Cassiano Elek Machado em um artigo da Folha de São Paulo: Gay Talese fazendo reportagens é Picasso com suas tintas, Ferrari de tanque cheio --só que melhor.

Fui apresentada a Talese na faculdade, não lembro se peguei “O Reino e o Poder” na biblioteca antes ou depois da aula de Renata Carraro. Só sei que ali conheci o jornalismo literário e caramba, que alegria. Antes de finalmente optar por jornalismo, quase fiz Letras por conta da Literatura e agora o jornalismo se unia com a literatura bem na minha frente (ok, isso aconteceu faz tempo – mas pra mim foi naquele momento). E pronto, posso me realizar sendo jornalista e escritora.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Jairo, Jairinho, Jairão!



A conversa na cozinha estava alta e alegre, todos na fazenda de sua avó, em Minas Gerais, pareciam festejar, planejavam algo, em seus olhos alegres Jairo sentia um ar maléfico. As crianças corriam, gritavam, divertiam-se, mas Jairo preferia observar aos adultos, com as barrigas em volta do fogão a lenha puxavam o fumo de corda e bebiam a típica cachaça mineira. A cada palavra o menino percebia que sua desconfiança tinha completo fundamento, eles estavam mesmo planejando um assassinato. Foi para cama mais cedo, levantou-se tão cedo quanto o tio, que costumava ordenhar as vacas, colocou botas de plástico, desceu até o curral, tinha que salvar o pobre ser que havia sido condenado à morte na noite passada.

Abriu a porteira e lá estava a inocente porquinha, o menino abaixou-se pediu desculpas por um dia ter cutucado sua pança e com jeito lhe deu as más notícias. Percebeu que a porca não havia entendido, olhou seus filhotes, compadeceu-se ainda mais, abriu a porteira, “vamos fuja”, nada, a porca continuava afundada na lama. Percebendo que não tinha muito jeito, olhou para os filhotes e os fez agradável companhia até cansar. Voltou à casa, isolou-se no quarto, dormiu.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Não conheci Blumenau

Parque Vila Germânica em Blumenau. Foto: Monique Souza
No táxi, dia de chuva em São Paulo, trânsito multiplicado. Adrenalina natural de quem acha que vai chegar atrasada no aeroporto. Ao meu lado, uma mulher de mais de 60 anos, fala ao celular e apressa o taxista, cabelos brancos e curtos, um sotaque engraçado que você não identifica de primeira, nem de segunda. Ela é egípcia. E como diz, tem o francês como “língua mãe” e mesmo depois de muitos anos no Brasil ainda tem um português carregado no sotaque. Vivi Haydu, que na época era minha chefe na Revista Têxtil, vai para mais uma viagem de trabalho, de inúmeras que já fez, eu vou ao seu lado, para minha primeira cobertura jornalística fora de São Paulo, a feira era a Texfair Home, evento de cama, mesa e banho importante para o setor têxtil em época de falta de algodão, em fevereiro de 2011.

O trânsito se dissipa a nossa frente e conseguimos chegar ao aeroporto de Congonhas, Vivi anda por seus corredores como se fosse sua casa, ela já esteve em muitos aeroportos, como os da Europa. Eu corro atrás dela e me sinto como sua “Emily”, afinal Vivi Haydu tem mesmo seus momentos de Miranda Priestly e não só na aparência. Deu tudo certo no embarque e no voo, vale citar que a delegação do Atlético Goianiense estava presente, fui conversando com o atacante Marcão, que se surpreendeu pelo meu conhecimento em futebol, até mesmo do time dele, que não é lá um dos mais conhecidos do Brasil.