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segunda-feira, 3 de junho de 2013

A fuga


Entre seus dedos passavam os ramos da plantação de trigo que de longe dava ar de visão cinematográfica, mas de perto, um esconderijo inseguro. O sol morno do outono incomodava seus olhos castanhos, que se fechavam numa expressão carrancuda. Ia passando, com certa dificuldade, os ramos do trigo, o tênis surrado e o vestido amarelo florido se camuflavam. O peso nos ombros não era só do medo, mas da bolsa marrom transpaçada no corpo. Correu até se perder, mas queria perder-se de si mesma, apagar dos olhos a cena que lhe fez prender muito ar no estomâgo e correr.

Os ramos outrora altos foram aproximando-se do chão e à sua frente, abriu-se uma trilha. Agora o sol batia diretamente em seus cabelos negros, a pele branca ardia vermelha, do suadouro da fuga.

Seguiu um pouco mais, as pernas tremulas não sustentaram o corpo ao tropeçar numa pedra, caiu ao chão, virou-se de frente, com as mãos na barriga que roncava, encarou o céu azul, fechou os olhos de cílios grandes e chorou.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Vida após a morte



Pela última vez o coração bate no peito do jovem rapaz. Tum.... Tum... Tum... O coração ainda pulsando é retirado do aconchegante peito por mãos de luvas siliconadas.Colocado em uma caixa gelada, sente falta do calor do jovem. Por que será que me retiraram de lá? - pergunta-se o coração assustado.

Estão balançando-me demais, pensa. Do lado de fora, no alto do prédio, a mulher espera por um helicóptero que já se aproxima. Não há muito tempo, é preciso fazer valer a pena esse ato de carinho em meio a tamanha dor. Esquece por um momento seu medo de voar e lá do alto contempla o cinza da cidade.