segunda-feira, 14 de julho de 2014

Saudade, Dona Odete


Saudade de tocar a campainha só pra você aparecer na janela da cozinha
Saudade donde tinha comida sempre, com direito a suco de goiaba, manga e caju...sabores que não gosto, mas que bebia sempre, porque era a sua dose de carinho
Saudade de ver futebol e xingar os jogadores com você
Saudade das suas histórias da juventude na Bahia
Saudade de suas piadas políticamente incorretas          
Saudade de falar que ia escrever um stand up comedy com suas piadas e você nem saber o que era
Saudade do seu seu interesse por minha profissão, você se esforçava mesmo pra saber o que significava uma pós-graduação em jornalismo literário
Saudade de você trocando nome de namorado e me fazendo passar vergonha
Saudade de você adormecendo no sofá ao ver novela
Saudade de dormir com você e acordar quando era sua hora do xixi
Saudade da sua risada
Saudade da sua reação ao ver minha tatuagem
Saudade de pegar seu acessório de cabelo emprestado
Saudade do seu pijama do Mickey
Saudade de ser sempre acolhida, mesmo de mala e cuia
Saudade das raras ligações que eu fazia
Saudade do seu colo, ainda posso sentir a textura da sua pele
Saudade de ver você lendo suas revistas, estudando a Bíblia
Saudade de perguntar quantos gols você fez no "campo"
Saudade da sua serenidade e sabedoria
Saudade de não ter festa em seu aniversário... hoje seria assim, mas só é um dia de saudade...como todos os outros

Saudades, sabe Vó?

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A Copa do Mundo no meu quintal

Se na minha infância, você chegasse no meu ouvido, como quem conta um segredo e, falasse assim: vai ter Copa do Mundo no Brasil. Eu provavelmente não acreditaria. Agora, se você dissesse: vai ter Copa do Mundo em Itaquera. Daí eu iria rir da sua cara e sair correndo pra continuar a jogar bola na ladeira da Noite Verde.

A Noite Verde é a rua onde cresci. Sim, até os 16 anos esse foi meu endereço, rua Noite Verde, Vila Carmosina - Itaquera. E por lá a rua já foi de barro, confesso que não lembro bem dessa época, mas foi. Mas depois, o grande prefeito de São Paulo, que anuncia até hoje seus feitos (colocou a Rrrrrota na rrua), fez a obra, asfaltou a Noite Verde. Essa parte da Rota também é verdade, lembro vagamente de um dos amigos de meus tios que foi morto pela polícia, lá pertinho da Noite Verde.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sem pedaços

Eu sei o quero
juntei os cacos, estou sem pedaços
inteira

Mas você vacila
oscila
metade

De mim!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Verdes lembranças

No pé de abacate
No quintal de terra batida
Sempre tinha alegria verde

Ela sorria e oferecia
Amassava e misturava
Fruta e açúcar


Doce de vó.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Toque gélido

O toque gélido da morte

Faz da pele macia
Um esturricar descontente

Faz do colo certo
Um monte de incerteza que cheira à flor

Faz do riso fácil
A dureza da expressão sem cor

Faz das rodas de gargalhadas
Um fungar cheio de dor

Faz de lembranças
História

O inverno chegou!

R.I.P

Vó Odete
[1940-2014]


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Leveza

Achei que me sentiria vazia
Quando você já não estivesse
Em sua velha casa
Dentro de mim

Mas, o que sinto agora
É mais como um alívio 
Um respirar desafogado
A leveza, que faz a brisa bater e

Desejar alçar novos voos



[...]

terça-feira, 26 de novembro de 2013

No espelho


Concentrada olhando no espelho
Pergunta-se mais uma vez
Por que não esquecê-lo?

Ajeita os cílios
Que são como pensamentos
Tentando se aprumar
Mas vão a um só lugar

No espelho ela olha pra dentro
E o sorriso surge verdadeiro
Mas, então
Por que não esquecê-lo?

Sonhou dias atrás
Com o amor que a satisfaz
Mas acordou e o amor... Jaz
Por que não esquecê-lo?

Porque não há mais evidências
Sobrou só
A sua carência

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Apatia


Eu queria ver o sol nascer
Como se eu fosse amanhecer
A esperança que encarna o novo dia
Retiraria toda minha agonia

Como se fosse mágico ver
Que há luz após anoitecer
Ao levantar-se a estrela, brilharia
A vida sorriria

Mas, o que fiz foi escolher
Nada novo nesse dia, poderia acontecer
Recolher-me no que conhecia
A segurança da apatia

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Encantamento


Eu não preciso te impressionar
Por isso ou aquilo
Não faz-se esforço para o gostar

Aquele dia que ouvi tua voz
E teus olhos esquadriaram meu sorriso
Ali já era caso perdido

Então, vestiu-se a melhor roupa
O perfume espirrou na pele
Falou-se de tantos assuntos

Mas o beijo surgiu no silêncio
Assim como admiração,
Encantamento